“Só com Jesus tem jeito de vencer o crack”, destaca ex-usuário de drogas

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“A curiosidade em saber qual era a `onda´ causada pelas drogas, as más influências e a separação dos meus pais foram as portas de entrada para um caminho que quase arruinou a minha vida. Aos 13 anos de idade, meu pai saiu de casa e por causa da atitude dele, comecei a trabalhar e ter responsabilidades, como ajudar a pagar as contas de casa. Apesar de muito novo, tinha a liberdade de sair sem ter que pedir permissão, por isso, apenas avisava a minha mãe para aonde estava indo. E, nessas `saídas´, passado um ano da separação, comecei a me envolver com uma turma de jovens mais velhos do que eu, na faixa dos 20 anos, eles gostavam de fumar maconha. Certo dia, a turma estava reunida para usar a droga e, nela, havia uma menina que eu gostava. Ela era usuária, mas não me ‘dava ideia’. Para me sentir ‘aceito pela galera’ e impressionar essa tal garota, experimentei maconha pela primeira vez.

Foto: Internet/ IlustrativaFoto: Internet/ Ilustrativa

Com o passar dos dias continuei a fumar, no entanto, não comprava, pois achava um absurdo comprar drogas. Portanto, só fumava a maconha que a turma me dava. Mas chegou o momento em que o vício passou a me dominar, então, comecei a comprar a droga e a fumar todos os dias. Apesar de ter me tornado usuário de maconha, o vício não me atrapalhava muito. Estudava, trabalhava e fazia as minhas atividades como qualquer pessoa, além de continuar ajudando minha mãe com as despesas. Porém, com o passar do tempo, fiz `amizade´ também com uma turma que cheirava cocaína. E com o mesmo objetivo de querer vê qual era a `onda´ da droga e de me sentir aceito pelos novos `amigos´, experimentei cocaína e me rendi ao vício. No início, cheirava só aos finais de semana, mas depois comecei a cheirar todos os dias. Minha vida era mais ou menos assim: quando queria `relaxar´ fumava maconha; e quando queria ficar `louco´, cheirava cocaína.

Foto: Internet/ IlustrativaFoto: Internet/ Ilustrativa

Mesmo sendo usuário de maconha e cocaína, minha família não desconfiava de nada, pois continuava levando a minha vida com muita normalidade. Mas o meu comportamento começou a mudar. Tornei-me uma pessoa agressiva, já não ajudava tanto com as contas de casa e o meu dinheiro não sobrava para nada, pois gastava quase tudo com o vício. Nessa época, trabalhava na empresa de um tio meu, e o meu salário acabava muito rápido. Já sem grana e com uma vontade imensa de usar drogas, comecei a realizar pequenos furtos no caixa.

Devido ao meu comportamento alterado, à falta de dinheiro, entre outras situações, minha família descobriu que eu estava envolvido com drogas e decidiu me encaminhar para a primeira clínica de recuperação, das 10 em que estive internado. Fiquei nesse local por cinco dias e logo que saí fui direto para uma comunidade, daqui de BH, comprar drogas. No momento da compra, um rapaz, morador da região, gostou do meu relógio e tentou me roubar. Ao reagir ao roubo, ele atirou em mim e o tiro acertou meu abdômen. Fui levado para o hospital e minha mãe ficou desesperada ao saber da notícia. Como eu era muito vaidoso, fiquei revoltado com a cicatriz deixada pelo tiro. Ao sair do hospital, o sentimento de vingança rondava meus pensamentos, até que um dia, peguei uma arma e fui atrás do rapaz que havia atirado em mim. Passei por diversos lugares, onde poderia achá-lo, mas não o encontrei.

Dentro desse quadro de autodestruição, esse mesmo tio com o qual eu havia trabalhado, me levou para uma igreja evangélica, onde entreguei a minha vida a Cristo. No entanto, foi só um ato de entrega, porque passado poucos dias, voltei para a minha antiga vida. Comecei a usar drogas novamente e continuei me envolvendo com mulheres com as quais tinha relacionamentos que não se enquadravam nos princípios da Palavra de Deus. Mas em meio a tudo isso, voltei a trabalhar. Por causa do vício, havia deixado a empresa do meu tio, mas uma nova oportunidade de emprego bateu à minha porta. Comecei a atuar em uma loja de comércio de roupas, onde realizava muitas vendas. Voltei a ganhar dinheiro e, mais uma vez, meu salário foi todo direcionado para o consumo de drogas.

Foto: Lagoinha SavassiFoto: Lagoinha Savassi

Totalmente entregue ao vício, era chegada a hora de ser internando novamente. Fiquei na casa de recuperação por 10 dias e, quando saí, voltei a fumar maconha. Apesar de continuar usando drogas, comecei a frequentar diversas igrejas evangélicas, entre elas, a Igreja Batista da Lagoinha. Nesse tempo de visitas às igrejas, lembro-me de um dia em que estava no Culto Fé, liderado pelo Pr. André Valadão, e o apresentador do Balaio, Alex Passos, perguntou ao público: `tem alguém aqui com uma bucha de maconha no bolso? Se tiver, peço que a pessoa venha até o púlpito e entregue a droga e a vida para Jesus’. Essa pessoa era eu. Na hora, o Espírito Santo disse para ir até lá, mas não dei ouvidos a ele e, devido à minha desobediência, caí no mundo do crack.

Foto: Internet/ IlustrativaFoto: Internet/ Ilustrativa

Passado uns dias desse episódio, pedi a uma pessoa que estava me devendo R$ 20,00 para comprar cocaína para mim. Como não havia cocaína, ela voltou com crack. Eu disse a ela: `Você está louca? Eu não fumo crack´. Ela me respondeu: `Não havia cocaína, por isso trouxe crack. Mas já que não fuma, vou devolver e depois volto para trazer seu dinheiro´. Como não queria que ela ficasse me devendo, resolvi ficar com o crack e acabei fumando. Naquele dia, lancei a minha vida no fundo do poço. Viciado, já não conseguia mais trabalhar. Quando saía das clínicas, arrumava emprego, tornava a ganhar dinheiro, gastava com drogas e ia sobrevivendo. Mas com o crack era impossível ter um emprego. No início do uso da droga até ia trabalhar; faltava uns quatro dias direto; dava uma desculpa, falando que havia acontecido um problema aqui, outro ali; mas chegou uma hora em que me entreguei por completo ao vício; e fui despedido.

Desempregado e sem dinheiro, comecei a fazer uma coisa que até, então, considerava um absurdo: roubar e trocar objetos pessoais e utensílios de casa por drogas. Atordoado para conseguir uma grana para consumir drogas, comecei a trocar minhas roupas, relógio, tênis, entre outras coisas. Com o tempo, já não tinha mais o que trocar, então comecei a pegar objetos da minha da casa como DVD, televisão, entre outros. Na época, minha mãe ficou tão desesperada com essa situação que trancou todas as coisas da casa, desde móveis até coisas de menor porte, dentro de um cômodo da minha residência, e a chave, constantemente, ficava dependurada em seu pescoço. A casa ficou tão vazia que dava até eco.

A cada dia que passava minha vida ia se complicando. Sem mais nada para vender, o jeito foi partir para o roubo. Cheguei a roubar peças de picanha em supermercado, desodorante, entre outras coisas para trocar por drogas. Além disso, comecei a fumar crack dentro da minha própria casa. Fui perdendo tudo o que tinha, desde a minha dignidade até a minha família. Completamente doente pelo vício, consegui também adoecer toda minha família. Conviver comigo estava tão difícil que dois dos meus irmãos saíram de casa. E olha que, por muitas vezes, ficava por vários dias sumido, sem pisar em casa e sobrevivendo igual a mendigo, enrolado a um cobertor, na Pedreira Prado Lopes. Não tomava banho, não me alimentava, convivia em meio a tiroteios, apanhava de policiais e meu único objetivo de vida era me drogar. Certa vez, fiquei tanto tempo sumido que minha mãe e minha irmã foram me procurar no Instituto Médico Legal (IML), mas, nesse mesmo dia, voltei para a casa.

Foto: Arquivo PessoalFrederico e sua avó Ondina / Foto: Arquivo Pessoal

A minha situação estava tão insustentável, que em um determinado momento pensei em suicidar. Fui à casa da minha avó materna, que eu amo demais, para me despedir dela. Ao chegar lá, disse a ela que havia arrumado um emprego em um lugar distante; e que não tinha previsão de volta. Nessa hora, Deus a usou de uma maneira tremenda. Ela me disse: `Por que você vai para este lugar, sendo que seu lugar é aqui? Por que você não volta para a casa de recuperação? Vá se tratar! Não desista! Eu acredito em você. Você ainda será um grande homem, se casará e terá filhos´. A minha avó sempre corrigiu com amor.

Naquele dia, lembro-me que uma era uma sexta-feira, o dia do aniversário da minha mãe. Ao sair da casa da minha avó, voltei para casa e falei para a minha mãe que o presente que eu poderia dar a ela no momento era voltar para a casa de recuperação. Ela, devido às minhas tantas recaídas, não acreditou em mim. Mas eu fui. Chegando lá, o pastor, que dirigia essa casa de recuperação, na qual já havia sido internado e batizado nas águas em 2009, pediu que eu retornasse na segunda-feira. Voltei para a casa, roubei um objeto da minha mãe, troquei por drogas e aproveitei o final de semana para me drogar. Era como se fosse uma ‘despedida’ do vício.

Passado o final de semana, era chegada a hora de me internar. Cheguei à casa de recuperação transtornado. Após me deixar no local, minha mãe foi embora e eu apaguei. Só acordava para comer. Não tomava banho e o meu cheiro não era nada bom. Mas no quarto dia em que eu me encontrava nessa situação, acordei e fui ao pé de uma cruz que há na casa, me ajoelhei e clamei ao Senhor que mudasse minha história e conduzisse a minha vida. Fiquei nesse centro de recuperação por dois meses e dez dias e voltei para casa. Ao retornar, me preocupei em viver um dia de cada vez. Lembro-me que retornei em uma terça-feira e na sexta-feira teve uma vigília em uma igreja evangélica perto da minha residência. Quando falei para a minha mãe que ia para essa vigília, ela logo pensou que eu estava saindo para usar drogas, pois já não acreditava mais em mim. Mas, desde que saí dessa casa, com 31 anos, nunca mais usei drogas.

Comecei a congregar em igrejas evangélicas; voltei a trabalhar; a conviver com a minha família de uma forma harmoniosa; e me ingressei no Rhema, onde cursei Teologia Pastoral. Já faz dois anos e três meses que abandonei totalmente o vício. Hoje, minha motivação é servir na obra de Deus, ajudando outras pessoas que estão sob o domínio das drogas. Quero muito ser usado pelo Senhor, para que outras vidas também sejam libertas. Quero que todas saibam que com Jesus há jeito para reconstruírem sua história e perseguirem os seus sonhos que, por certo tempo, ficaram estacionados.

Frederico e sua família / Foto: Arquivo PessoalFrederico e sua família / Foto: Arquivo Pessoal

Atualmente, trabalho em uma empresa de comercialização de roupas, sou membro da Igreja Batista da Lagoinha, onde sou pastoreado e atuo na consolidação. Ministro tanto em outras igrejas, quanto em casas de recuperação compartilhando o meu testemunho, dando aconselhamentos e motivando famílias a não desistirem de seus familiares. Além disso, encaminho pessoas para casas de recuperação; para as quais faço, dentro do possível, doações de roupas, calçados, medicamentos, alimentos, entre outras coisas. Já quanto ao meu futuro, se Deus permitir, pretendo ter uma clínica de recuperação de dependentes químicos, para que eu possa auxiliar ainda mais pessoas; quero também continuar trabalhando muito, conquistar o que ficou pendente e realizar meus sonhos, entre eles, o de casar com uma mulher de Deus e constituir uma família abençoada”.

Frederico Lages Thomaz, (33)

Contatos: Instagram: @fredthomaz / facebook.com/fredthomaz/ Telefone: (31) 9142-7879

Texto: Cristiane Soares

Fonte: Lagoinha.com